Mercedes-Benz 300SL

Um dos automóveis mais cobiçados do mundo, o Mercedes-Benz 300SL revolucionou a indústria e as mentalidades de sua época. Em 1954 o Asa de Gaivota era considerado esportivo demais, e, em 1957, ele passou a se chamar Roadster e se tornou conversível.

A reportagem a seguir foi publicada originalmente na revista Antigomobilismo Magazine, a Revista do Carro Antigo, em novembro de 1991. Conheça este clássico.

Mercedes-Benz 300SL

É difícil alguém não gostar de um conversível. Com a capota abaixada, o vento circulando por todas as direções e o sol batendo no rosto, a sensação é de total liberdade. Mas existem situações em que um hard-top, ou seja, um automóvel de capote de aço, é muito mais conveniente. Para contentar todos os tipos de gosto, então, escolheremos os dois modelos.

Só que, quando o veículo em questão é um Mercedes-Benz 300SL, ter os dois na garagem é um tanto difícil, principalmente sabendo-se que existem apenas sete exemplares desse esportivo alemão. São três conversíveis, ou Roadsters, e quatro cupês, ou Asa de Gaivota, como esse modelo é conhecido, devido à forma com que suas portas são abertas.

Em sua época - o 300SL foi fabricado de 1954 a 1963 - era ainda mais difícil ter esses dois carros ao mesmo tempo, já que eles nunca foram fabricados simultaneamente. Em março de 1957 terminava a produção do Asa de Gaivota, depois de 1.400 unidades fabricadas, e começava a fabricação do Roadster, que até 1963 teve uma produção total de 1.858 unidades. Pode-se dizer até que foi uma evolução do cupê.

Injeção direta

O Mercedes-Benz 300SL foi o automóvel de série mais rápido de seu tempo, até hoje considerado um prodígio quando se relaciona sua potência máxima de 240 hp a 6.100 rpm com a velocidade que ele poderia atingir: 267 km/h. Suas origens vêm das pistas: o 300SL derivou de um protótipo de competição, que vencia todas as provas na Europa, como a Mille Miglia, Targa Florio, Tourist Trophy e Lê Mans.

Não foram apenas as portas abrindo como asas de uma gaivota que revolucionaram a indústria e as mentalidades da época. O chassi tubular, em estrutura espacial, e a injeção direta de gasolina na câmara de combustão (os automóveis modernos têm injeção de combustível indireta, no coletor de admissão) eram inovações extraordinárias.

O motor do Mercedes-Benz 300SL é um seis cilindros em linha, longitudinal, dianteiro, montado com uma inclinação de 40 graus à esquerda para abaixar a linha do capô e melhorar a aerodinâmica do carro. O sistema de injeção indireta, com bomba de gasolina Bosch de alta pressão, permitia que o motor desenvolvesse facilmante seus 240 cavalos de potência, com incrível torque de 32,3 kgf.m e 4.800 rpm.

Com tamanho desempenho, pilotar o Asa de Gaivota não era tarefa para qualquer um. Isso prque ele tinha dois problemas congênitos: um eixo traseiro que não permitia mudanças bruscas de trajetória, como frear "dentro" da curva, por exemplo, e quatro freios a tambor bastante inócuos. Essas características fizeram com que muitos "pilotos" respeitassem mais suas próprias limitações que aquelas oferecidas pelo automóvel.

Luxo americano

Sob o aspecto estético o Asa de Gaivota agradou muito. Mas havia o lado prático da questão: entrar no carro obrigava o piloto e o passageiro a primeiro sentar na lateral do carro (bem alta, devido à estrutura espacial do chassi) e depois escorregar para dentro. Se fosse uma mulher, isso, logicamente, ficava mais difícil. De saia, ou vestida para a noite, pior ainda. Isso já eliminava o automóvel dos meios essencialmente sociais. Ele era um esportivo mesmo. Outro senão era a falta dos vidros que abrissem normalmente: as janelas laterais só podiam ser retiradas. Vários casos de rejeição ao automóvel eram causados por claustrofobia!

O Mercedes-Benz 300SL Roadster veio solucionar todos esses problemas. As portas agora abriam normalmente, apesar de ainda manterem uma boa altura do chão, por causa do chassi tubular espacial. A estrutura do carro teve que ser reforçada também, devido à supressão do teto rígido. O eixo traseiro passou a ser articulado, resolvendo de vez a sua tendência a jogar nas curvas mais fortes. E, a partir de 1961, os quatro tambores de freio foram substituídos por quatro discos.

O interior do automóvel pouco mudou com a sua transformação. O painel de instrumentos ganhou um aspecto mais americanizado, já que foram os norte-americanos os que mais influíram na aparência de todos os Mercedes-Benz. O volante, que no Asa de Gaivota tinha uma dobradiça para facilitar o acesso do motorista, no Roadster ganhou um aro de buzina. Externamente, o Roadster tinha uma traseira mais baixa e comprida, os faróis dianteiros "em pé", como ficou depois caracterizada a marca, e, a partir de 1958, o teto rígido basculante. O 300SL, então, já estava ficando muito parecido com o 230SL que surgira em 1963 e que fez estrondoso sucesso, mesmo sem ter uma ascendência esportiva.

O Mercedes-Benz 300SL estava agora bem fácil de ser pilotado, principalmente devido aos freios a disco e à nova suspensão traseira. Mas já não tinha o apelo esportivo do Asa de Gaivota. Os dois modelos, Roadster e Asa de Gaivota, tornaram-se clássicos. Um por ter uma ascendência e temperamento puramente esportivo, outro pela elegância e capacidade de fornecer "status". Mas ambos, principalmente, por serem Mercedes-Benz.

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Como Começou

No fim do ano de 1951, a Daimler-Benz resolveu voltar às pistas, depois de algum tempo afastada, e decidiu que participaria das próximas Mille Miglia, em maio de 1952. Apesar do pouquíssimo tempo, terminou um protótipo, chamado de 300SL, que passou a dominar todas as competições mais importantes, batendo inclusive o famoso Jaguar Tipo C dos ingleses. Esse carro tinha motor de seis cilindros e três carburadores, e era o mais rápido nas longas retas das pistas européias.

Dois anos depois era apresentado em Nova Iorque um protótipo de pré-produção do carro, que imediatamente chamou atenção e provocou muitos pedidos para ser colocado à venda. Isso aconteceu no mesmo ano, surgindo assim o Mercedes Benz 300SL. Ironicamente, o carro de série era mais potente que o de corrida, devido à injeção direta de gasolina. O peso do carro também foi fator decisivo para seu bom desempenho: o chassi tubular de estrutura espacial pesava apenas 82 kg e havia a opção por uma carroceria inteiramente de alumínio com peso 158 kg menor que a original, de chapa.

Era grande o número de opcionais para esse carro, desde um comando de válvulas de competição, caixa de câmbio especial, motor com bloco de alumínio, e até rodas de cubo rápido tipo "Rudge". Para o conforto, havia a opção de um jogo de malas para viagens, esguicho elétrico para o limpador de pára-brisa, estofamento de couro e rádio Becker AM/FM. O Roadster tinha também todos esses opcionais e mais a capota rígida a partir de 1958, mas, quando ele ganhou freios a disco nas quatro rodas deixou de ter, como original, as rodas de cubo rápido (não havia compatibilidade). Em compensação, todos os conversíveis já saíam de fábrica com o comando de válvulas de competição.

Ficha técnica:

Motor: - Dianteiro, longitudinal, inclinado a 40 graus à esquerda, refrigerado à água, seis cilindros em linha, duas válvulas por cilindro, comando de válvulas no cobeçote (opcionalmente bloco de alumínio)
Cilindrada: - 2.996 cm3
Diâmetro e curso dos pistões: - 85,0 x 88,0 mm
Taxa de compressão: - 8,55:1
Alimentação: - Injeção direta de gasolina na câmara de combustão, com bomba de alta pressão Bosch
Potência máxima: - 240 HP a 6.100 rpm
Torque máximo: - 32,3 Kgf.m a 4.800 rpm
Transmissão: - Tração traseira, câmbio de quatro velocidades, manual. Relações: 1ª 3,14:1; 2ª 1,81:1; 3ª 1,31:1; 4ª 1,00:1; Diferencial 3,64:1 (série) 3,42:1 e 3,25:1 (opcionais)
Suspensões: - Dianteira independente, com molas helicoidais concêntricas e amortecedores telescópicos hidráulicos. Traseira independente, por semi-eixos oscilantes, molas helicoidais e amortecedores telescópicos hidráulicos
Direção: - Caixa mecânica ZF, por esferas circulantes
Freios: - A tambor nas quatro rodas, acionado hidraulicamente (a disco nas quatro rodas a partir de 1961)
Rodas e pneus: - Rodas 5Jx15 (cupê) e 5,5Jx15 (Roadster), pneus 6,50x15 (opcionais rodas de cubo rápido nos modelos cupê e Roadster até 1960)
Estrutura: - Chassi tubular de aço, espacial em treliça, carroceria em chapa de aço (portas, capô e tampa traseira de cupê em alumínio). Opcional carroceria totalmente em chapa de alumínio
Dimensões: - Comprimento 4.210 mm - Largura 1.780 mm - Distância entre-eixos 2.380 mm - Bitola dianteira 1.380 mm - Bitola traseira 1.430 mm- Peso total 1.295 Kg - Capacidade do tanque de combustível 130 litros

Produção do Mercedes-Benz 300SL
1954 - 166 unidades
1955 - 830 unidades com carroceria de aço, 26 unidades com carroceria de alumínio
1956 - 305 unidades com carroceria de aço, 3 unidades com carroceria de alumínio
1957 - 70 unidades (últimas Asa de Gaivota), 618 unidades (primeiras Roadster)
1958 - 267 unidades
1959 - 200 unidades
1960 - 241 unidades
1961 - 256 unidades
1962 - 182 unidades
1963 - 91 unidades
1964 - 3 unidades
TOTAL - 3.258 unidades (1.400 Asa de Gaivota e 1.858 Roadster)

 
 

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