A lei do mais forte

Uma das coisas que logo aprendi sobre o trânsito é a lei do mais forte. Antes até de começar a dirigir, pois nunca deixei de notar as "forçadas" que caminhões e ônibus praticavam contra os pobres dos motoristas de automóveis de menor tamanho. Hoje, décadas depois, essa lei ainda vale, só que com algumas diferenças. A mais triste delas é que não apenas os chamados veículos pesados se aproveitam de seu tamanho para acuar carros pequenos, mas também outros motoristas comuns que, adotando como armas carros maiores, como grandes picapes ou os tão em moda sport-utilities, saem por aí "empurrando" os mais fracos e indefesos. Posso dizer isso com conhecimento de causa, principalmente porque sofri, noúltimo mês de janeiro, dois ataques de cruéis veículos utilitários. O mais grave foi na estrada.

Indo de São Paulo até Camburi, no litoral norte paulista, com meu pequeno Fiat Uno Mille, viajava tranqüilo em uma noite de quase nenhum movimento quando, no meio de uma ultrapassagem daquelas suadas (o carro é 1.0, lembra?), dois faróis grudaram na traseira. Deu para perceber que era um Dodge Dakota com muita pressa. Tanto que seu irresponsável motorista não quis esperar o término da manobra, praticamente colando no meu pára-choque. Para evitar maiores problemas, usei a velha tática de aliviar um pouco o pé do acelerador, para que ele se tocasse e tomasse maior distância. O feitiço virou contra o feiticeiro: o sujeito se irritou e passou a fazer zigue-zagues incríveis, querendo me intimidar. Terminei a ultrapassagem e fui para a direita, mas não adiantou. Ele continuou atrás de mim até que quase paramos na estrada. Foi quando o agressor resolveu passar. Só que desta vez para atacar mais forte: atravessou o carro na estrada e não me deixou passar. Não tive outra alternativa, e fiquei uns 10 minutos parado no acostamento, esperando ele ir embora. Afinal, um pobre Uno não é páreo para uma Dakota Sport de cabine estendida. Aproveitei para telefonar para a Polícia Rodoviária, dando placa e dados do carro. Eu só pude continuar a viagem quando o motorista desceu do carro, parecendo estar bêbado. Alguns minutos depois ele passa direto por mim, para ser parado no posto da Polícia. Parei também. Contei o que havia acontecido e o resultado foi frustrante: como os policiais não presenciaram a cena, não poderiam autuá-lo, liberando-o.

É, nada pude fazer contra um criminoso das estradas, assim como a Polícia também não pode. Ninguém pode. Quem sabe os mesmos motoristas que um dia sofreram com a lei do mais forte, praticada pelos motoristas profissionais, estão hoje em seus sport-utilities e suas grandes picapes se vingando nos mais fracos. Afinal, porque alguém compraria um carro derivado de um utilitário se, pelo mesmo valor, ele pode ter um carro de passeio com o mesmo espaço interno e muito mais conforto? Para se proteger desse mesmo problema, ele passa a fazer parte dele. Bem diferente da mentalidade norte-americana, cujos estudos sobre a diferença de tamanho entre os carros de passeio e os sport-utilities visam atenuar as conseqüências de um choque entre os dois. É coisa séria, que mexe com a rica indústria automobilística americana. Mas o que tem que ser feito, é feito. Por enquanto nós, brasileiros, só temos que evitar atritos com os grandalhões, atuais donos das ruas e das estradas.

 

Publicado na Revista CARRO número 77, março de 2000, página 19

 
 

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