| |

Bons tempos aqueles em que não
tínhamos carros importados. Apenas algumas "carroças"
nacionais de US$ 30000 ou mais ostentavam as garagens de quem
queria mais status que seus vizinhos.
Não quero dizer que
a chegada de grandes marcas mundiais não foi benéfica,
muito pelo contrário. Mas é que às vezes
sinto saudade da emoção dque eu sentia todas
as vezes que ia ao exterior e experimentava um automóvel
diferente. Não precisava ser melhou ou pior, apenas
diferente. Lembro bem de ficar o dia inteiro maravilhado ao
cruzar com marcas e modelos que apenas via em fotos, enumerando
os que eu conhecia e os que nunca tinha visto.
Há apenas dez anos,
isso ainda era real. Foi assim que eu transformei uma viagem
de férias pela Califórnia, Nos EUA, em uma cruzada
pelo maravilhoso mundo dos automóveis. A visão
de um Corvette do ano chegava a ser mais importante que a
vista da ponte Golden Gate, em São Francisco. Nâo
podia passar em frente de uma loja de carros importados da
BMW, Porsche ou Mercedes-Benz, que eram pelo menos 40 minutos
admirando cada um dos modelos expostos. Mas eu tinha meus
trunfos.
Na época, consegui, por cortesia, um excelente
Mercury Cougar XR-7 zero quilômetro - um modelo que
era novidade até no mercado norte-americano. A placa
era 14, da Califórnia. Uma boa opportunidade para conhecer
a famosa Rota 66, estrada que ligava Chicago a São
Francisco, uma das mais importantes da história rodoviária
americana. Hoje, completando 70 anos, essa estrada não
existe mais, sobraram apenas alguns trechos históricos
- as highways passaram por cima.
Eu havia assitido muito a série de televisão
Rota 66, na qual dois amigos percorriam esse caminho, sem
rumo, em um Corvette 1957. Lá fui eu com o Cougar,
que era equipado com um compressor volumétrico de série
(blower) e tinha a fama de andar muito. Mas isso eu nunca
pude experimentar... Um pouco de medo, quem sabe, dos Chip's
(Californis Highway Patrol), que eu também via muito
na televisão. Mas o medo não era infundado.
E a única tentativa de pisar mais, não deu certo:
à noite, luzes coloridas piscando no meu retrovisor
já me fizeram ficar preocupado. Não, não
é comigo: bastas diminuir que ele vai piscar em outro
lugar. Ele diminuiu também. Era comigo. "Você
sabe a que velocidade ia?", berrou o policial com a lanterna
na minha cara. Não menti: eu tinha visto as 70 milhas
porhora no velocímetro antes de tirar o pé.
Afinal, não era assim uma velocidade tão alta.
Outro berro: "Você sabe quel é o limite
neste trecho da estrada?" Eu não sabia. Ele virou
a lanterna para uma placa a apenas 1 metro de distância
do meu pára-choque: 30 milhas".
Eu já me via tentando explicar ao juiz
corrupto de uma cidadezinha minúscula do interior (vi
isso em um filme, também) que não sabia, que
não era dali e tudo mais. Detalhe: tudo em inglês.
Isso depois de uma bela noite no xadrez. Mas o guarda, que
não era um Chip's, acho que não quis complicação:
meu passaporte brasileiro desfez sua cara de mau e ele apenas
completou: "Vai embora. Não posso nem te multar,
senão você não escapa do tribunal".
Obedeci mais do que depressa.
Dez anos depois, uma viagem ao exterior não
tem mais aquele gostinho de novidade. Afinal, temos tantos
ou mais modelos importados disponíveis que muitos grandespaíses.
E as mesmas limitações de velocidade. Mas até
hoje fico pensando, será que aquele Cougar andava mesmo
tanto quanto diziam?
Publicado na Revista CARRO numero 61, novembro
de 1998, página 62
|
|