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Alguém já viu aquele famoso símbolo da Volkswagem crescendo
assustadoramente pelo espelho retrovisor? Se já, só poderia
ser uma Kombi, cujo motorista é um exímio praticante da telegrafia
automotiva. Telegrafia? Samuel Morse nada tem a ver com essa
prática tão comum, que não ataca apenas motoristas de Kombi,
mas como foi ele que inventou o telégrafo, talvez devamos
culpá-lo por existirem pessoas que tratam o acelerador de
seus automóveis como uma central de telegrafia.
Para deixar seu carro bem
perto do carro da vítima, independentemente da velocidade,
o telegrafista vai pisando no acelerador aos trancos, sem
nenhuma dosificação, acelerando e desacelerando rapidamente
para que os pára-choques não se toquem. O resultado é uma
imensa dor no estômago de quem ocupa o banco direito da Kombi,
além, é claro, da enorme irritação no motorista do carro da
frente. Bem, a telegrafia automotiva é muito praticada também
por todos os tipos de motoristas, com todos os tipos de automóveis.
Eu mesmo, aqui na redação, poderia citar alguns exemplos.
São motoristas mais afoitos, que dirigem sempre ansiosos,
e que não têm muita noção de aceleração e distância, razão
pela qual estão sempre telegrafando. Pior que ter uma Kombi
no retrovisor, é pegar carona com um telegrafista. Geralmente
ele telegrafa enquanto conversa, gesticulando e virando rapidamente
a cabeça para trás, para que todos os caronas possam participar
do assunto. A cada virada, uma desacelerada. E às vezes o
volante vem junto, fazendo até acrobata de circo enjoar.
OS ALFAIATES
Mas as ruas estão cheias
também de outro tipo de motorista, os alfaiates. Esses são
bem mais conhecidos, pois ficam costurando o trânsito como
quem cerze uma meia. Uma virada à esquerda, que tem uma brecha
entre dois carros, uma guinada à direita, às vezes voltando
de onde saiu, ou até mais atrás, ou mesmo uma rapidinha múltipla,
cobrindo duas ou três faixas de rolamento de uma só vez. O
alfaiate é sempre mais perigoso que o telegrafista, pois pega
de surpresa motoristas que não sabem de sua "profissão" e
invariavelmente querem enfiar seu automóvel onde ele não cabe.
Se telegrafar é um defeito grave em um motorista, costurar
é mais que isso, é uma infração passível de multa e pontos
no prontuário.
DOIS EMPREGOS
Se cada um deles se torna
um problema nacional, o que dizer do indivíduo que "abraçou"
as duas escolas? Dois "empregos", quem sabe. Ele abusa do
telégrafo no pé direito ao mesmo tempo que tenta remendar
todo o trânsito da cidade. Quer fazer um desses espécimes
quase ter um ataque de nervos? Não permita que ele entre na
sua frente, mesmo se o próximo carro de sua faixa está a mais
de 50 metros. Mas eu não recomendo: ele pode te costurar para
sempre. Os motociclistas urbanos conhecem bem esse tipo, e
com certeza já têm prática e sabem como evitá-los, pois eles
são mais indiscretos do que quem ainda fala no telefone celular
enquanto dirige. Para os outros, por vias das dúvidas, não
bobeiem em frente ou ao lado de uma Kombi, e, principalmente,
não aceite carona de qualquer um. A volta do almoço pode não
fazer muito bem para a digestão.
Publicado na Revista CARRO número 66, abril
de 1999, página 56
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