Bons motoristas?


Fiquei surpreso com a repercussão desta coluna da edição anterior - A Lei do Mais Forte -, quando falei sobre a agressão sofrida por veículos pequenos pelos grandes e imponentes sport-utilities e picapes. Confesso que esperava uma reação negativa dos representantes da categoria, mas isso não aconteceu. Na verdade, recebi um e-mail zangado de um leitor, dizendo que isso não existe, que se trata apenas de "dor-de-cotovelo" de quem não tem dinheiro para comprar um sport-utility, mas foi um caso isolado. Meu desabafo foi o mesmo de muitos motoristas "comuns", esmagadora maioria, que escreveram me apoiando e relatando casos parecidos. Aproveito agora, então, não para criticar, mas para elogiar, já que não houve espaço para isso no mês passado.

O fato é que, apesar de tudo, o trânsito está melhorando. Às vezes não parece, devido à enorme quantidade de novos veículos nas ruas a cada dia, mas os motoristas estão mais conscientes de seu papel na sociedade, o que por si só já ajuda muito. Efeito do novo código de trânsito? Sim, já que ficou bem claro para todos que só continuará dirigindo quem seguir as regras. Pude perceber isso na própria estrada: os congestionamentos continuam grandes nos feriados, mas já não se vê tantos carros trafegando pelo acostamento. É, os pontinhos no prontuário dão resultado. Um ou outro que passa, arriscando suas carteiras (as duas, a de motorista e a de dinheiro, já que as multas são altas), agora são vistos como os vilões da história, ao contrário do que ocorria anteriormente, quando não encarar o acostamento era um ato de covardia (já vi muito disso).

Não quero dizer que o trânsito está bom. Existem acidentes e muitos problemas, mas parece que agora existe um caminho a seguir para melhorá-lo. O que antes era regra agora é exceção. E é isso que está colocando os maus motoristas na berlinda. Em países civilizados, quem desrespeita a mais simples regra de trânsito está desrespeitando o cidadão, que reclama e isola o mau elemento. Este, por vergonha, passa a andar na linha.

Ainda estamos longe da perfeição. Nas ruas das grandes cidades, como São Paulo, se vê abusos de toda natureza, sem perspectivas de melhora. É o caso das placas de estacionamento proibido. Conhece? Aquela com um "E" cortado por uma faixa vermelha. For a das regiões centrais, onde a fiscalização é um pouco mais atuante, ninguém a respeita. E não é multado. O mesmo acontece com as placas de "PARE": parece que a regra é primeiro entrar na preferencial, e depois olhar para ver se podia. Nas mini-rotatórias, nas quais uma placa com um triângulo invertido indica que a preferência é de quem já está na rotatória, o problema é que ninguém sabe o que ela significa. Mas tudo isso é uma questão de preparo do motorista, o que, aos poucos, está sendo feito. Apesar das ovelhas negras da sociedade, como um vizinho que, todos os dias, desprezando a placa de contra-mão, sobe a rua com toda a tranqüilidade. Um dia desse dei de frente com ele, que, com uma criança no colo, exigia que eu desse marcha-a-ré para ele passar. Quando eu argumentei que ele estava na contra-mão, sua resposta, aos berros, foi a mais absurda que e eu já escutei em todos os meus anos de vida: "Eu moro aqui, e por isso tenho o direito de dirigir na contra-mão". Ainda bem que, casos como esses, a partir de agora, são enquadrados entre as exceções.

 

Publicado na Revista CARRO número 73, abril de 2000, página 23

 
 

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