Alguém já pensou como era viajar de automóvel em épocas passadas? Sem estradas, uma simples "chegadinha" ao litoral era uma aventura, podendo durar dias. É de se pensar, então, a sua importância na história do automóvel. Não fossem as estradas, o tão desejado automóvel não serviria para nada. Já vi muita gente se perguntando do porquê os carros de hoje serem tão rápidos, se não podemos passar dos 120 km/h. Bem, a tecnologia e a segurança inevitavelmente resultam em uma maior velocidade.

E para o Rio de Janeiro, alguém já foi, antes da criação da Rodovia Presidente Dutra, no início dos anos 60? Era mesmo uma aventura. Eu lembro muito do meu pai, que comparava o desempenho de alguns automóveis pelo tempo gasto para ir de São Paulo até o Rio, cobrindo os 400 km da rodovia. Três horas e alguma coisa, sempre por aí. Eu não podia duvidar das suas histórias, mas em uma dessas vezes eu participei dessa "corrida": a bordo de um récem-lançado Simca Explanada GTX, o carro nacional mais rápido até então fabricado (sem contar o Brasinca Uirapurú, um fora-de-série), fomos para o Rio de Janeiro, em março de 1968. Eu, com oito anos, minha mãe e minhas duas irmãs, toda a família a passear no Pão de Açúcar enquanto a meu pai fazia testes com o carro, em um trecho praticamente deserto de outra nova estrada, a Rio-Santos.

SAIA DO CARRO!


Três horas e quinze minutos, um recorde. Esse foi o tempo do GTX, um quatro portas esportivo com motor V8 e câmbio de quatro marchas no assoalho. E nós dentro. Minha mãe ficou exatamente esse tempo muda, e minhas irmãs exerciam o já atuante domínio feminino pondo a culpa em mim por cada briga iniciada no banco traseiro. Em uma delas, passeando em plena praia de Copacabana, meu pai freou bruscamente e berrou: "saia do carro!". Eu achei que era brincadeira, e saí. Ele arrancou cantando pneu e sumiu, virando a primeira à direita. O feitiço virou contra o feiticeiro: planejando dar uma rápida volta no quarteirão, pegou congestionamento, contra-mão, errou de ruas e levou uns vinte minutos para voltar. Vinte minutos em que minha mãe falou mais que as três horas e quinze que havia emudecido.

Chegando ao local do desembarque, a surpresa: eu estava lá. Nenhum sequestro, nenhum risco. Era 1968. E eu nem pensei em me esconder, para ver a cara da turma. Mas até chegar em São Paulo, quem não falou mais foi ele. E levamos bem umas cinco horas para chegar, mesmo com um "possante" Simca GTX.

NOVO RECORDE


O recorde, no entanto, foi logo batido. Lembro de um Dodge Dart, em 1970, duas horas e cinqüenta e nove minutos. E o Ford Maverick GT Quadrijet, menos que isso, em 1974. Dessa vez eu também estava presente, mas no banco da frente. Minha mãe foi de ônibus. Hoje, mesmo com automóveis muitas vezes mais seguros e mais velozes, não é mais possível fazer essas estravagâncias. Pelo menos não legalmente.

 

 

Publicado na Revista CARRO número 64, fevereiro de 1999, página 44

 
 

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