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Lembro bem, lá pelos
sete anos de idade, que eu sempre calculava quantos anos
eu teria no ano 2000. Quarenta anos era algo longínquo,
mas que chegou na hora certa, com muita história para contar
- por falar nisso, comemorei minha entrada nos "enta" tomando
champanhe francesa nos boxes das 24 Horas de Le Mans, em
plena corrida. O mais interessante é que as histórias mais
gostosas são as mais antigas. Um dia desses estava analisando
a virada do mercado automobilístico dos anos 90, com a entrada
dos importados, e a comparação com outras décadas foi inevitável.
Perto da escassez de novidades dos anos 80, os anos 70 foram
pródigos para a indústria, o que se pode demonstrar pelo
entusiasmo que havia em torno de cada novo lançamento. Na
década anterior não foi muito diferente, e alguns esportivos,
como o Willys Interlagos ou o VW Karmann Ghia, faziam mais
sucesso que muito importado hoje. Mas eram os fora-de-série
os mais desejados: o Puma, esportivo com a mecânica do Fusca
apresentado em 1968, no ano anterior tinha mecânica DKW,
com motor dois tempos de três cilindros, mas ainda um ano
antes, em 1966, ele foi criado como GT Malzoni. Era o máximo.
Haviam outros, e entre eles o que eu lembro com mais carinho
era o Lorena. O
carro lembrava um pouco o Puma, mas tinha a aparência muito
mais agressiva, quase um Ford GT-40. Também com a mecânica
VW a ar (naquele tempo não havia outra), o Lorena era o
preferido para competições. Na foto, é um Lorena em primeiro
plano, em plena aula de pilotagem no Autódromo de Interlagos,
em 1971. O circuito ainda estava em obras, mas já era possível
utilizá-lo para o curso de pilotagem - durante os quase
dois anos que Interlagos esteve fechado para reforma, as
aulas práticas eram ministradas em um trecho ainda não aberto
ao tráfego da Marginal do Rio Pinheiros. Muitas recordações
tenho desse Lorena, de seu dono, o Jacó, e sua namorada
Marcia. Eles eram alunos da escola e, graças à aptidão do
carro para a pista, eram os que mais se destacavam da turma.
Eu e meu amigo Mario Marcio, cujo irmão também era aluno
do curso, pulávamos de carro em carro em busca de emoções,
e o Lorena era o que mais nos atraía, principalmente quando
pilotado pela Marcia (o Jacó pilotava mais forte e nos assustava
um pouco). Havia também uma outra aluna, conhecida como
Rosana pé-de-chumbo, que dava o maior couro na rapaziada.
Essa eu também tinha um pouco de receio de pegar carona.
Dá para perceber, pela foto, que os carros dos alunos eram
os mais variados. A maioria Fuscas, alguns com motor 1200,
mas tinha também um VW Zé do Caixão do Mário, meu companheiro
no curso de kart do Waltinho Travaglini, alguns Karmann
Ghia e Opalas quatro portas com motor 3800. Dá para entender
por que o Lorena fazia tanto sucesso.
Uma
outra história com um Lorena eu não poderia esquecer jamais.
Foi em 1970, quando meu pai conseguiu uma carroceria do carro
ainda na fibra crua, e sem capota. Um dos fusquinhas 1200
da escola logo perdeu a carroceria - que virou brinquedo no
quintal de casa - e se transformou em um protótipo. O interior
do carro foi fechado também com fibra, ficando apenas um buraco
para o piloto, como naqueles carros de recordes, um pequeno
pára-brisa foi instalado e a pintura foi feita - acreditem
- com tinta spray dourada, daquelas de artesanato, em cima
da fibra. O carro era mais feio que bater na mãe na noite
de Natal, mas foi assim mesmo que ele foi para a pista. Ou
melhor, para a Marginal, pois nessa época Interlagos ainda
estava fechado. Estava rolando por lá o Festival de Recordes,
e o carro estava inscrito na Classe A da Divisão 4, carros
esportivos de série limitada com motor de até 1600 cm3. Lembro
até do dia: 14 de novembro de 1970. Era uma prova de velocidade
do tipo quilômetro de arrancada, cada competidor acelerava
duas vezes, uma em cada sentido, e a média seria computada
como a velocidade oficial. Tarde quente de domingo, o carrinho
feioso estava pronto para partir quando começou a engasgar.
E agora? Eu estava por perto quando meu pai tirou um dinheiro
do bolso e me pediu para comprar dois picolés de limão na
carrocinha ali perto. Apesar de não entender o por que dessa
atitude em uma situação tão crítica, fui. Ao voltar com os
sorvetes, ele logo tomou um das minhas mãos e o derreteu inteirinho
na bomba de gasolina do carro. O carro pegou e ele saiu. Ainda
deu tempo de gritar para mim, que estava com uma interrogação
na testa: "o outro é para você!". Aquele sorvete de limão
caiu muito bem depois de presenciar aquela cena, para mim,
insólita. Ah! Aquele Lorena horrível, sem capota e sem pintura,
todo melado de sorvete na bomba de gasolina, bateu, naquele
dia, o Recorde Brasileiro na categoria, levando um troféu
em forma de volante que eu guardo até hoje. Que eu saiba,
esse recorde de 174,900 km/h ainda não foi batido. Alguém
se habilita?
Publicado na Revista CARRO
número 75, janeiro de 2000, página 16
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