A lembrança do velho Maverick V-8 trouxe com ela muitas histórias, algumas delas tendo o carro como protagonista, mas a maioria apenas ligadas à mesma época. Os cinco anos passados dentro da Cidade Universitária, cursando Engenharia na Escola Politècnica da Universidade de São Paulo, foram recheados de acontecimentos automobilísticos. Já no segundo ano eu e alguns colegas tivemos a providencial idéia de criar um clube, devidamente batizado de Clube Politécnico de Automobilismo, o CPA. Eu era o Presidente da entidade, e entre alguns eventos interessantes consegui levar para uma palestra o idealizador da única escuderia brasileira de Fórmula 1, Wilson Fittipaldi. Ele falou para um anfitestro lotado sobre a equipe Coopersucar. Em outra ocasião, em um ambiente mais reservado, Ricardo Divilla, o projetista do Copersucar, deu aulas de como funciona um carro de Fórmula 1. Mas o resto das atividades do grupo quase que se resumia em muitas farras. Os rachas nas excelentes avenidas da Cidade Universitária era um exemplo disso. Quase todos os dias dois ou mais integrantes do grupo saÌa de fininho da sala de aula para descobrir qual carro corria mais. Lembro de uma vez em que fomos socorrer um dos colegas que havia capotado seu Fiat 147 sobre uma árvore, bem em frente da Faculdade de Biologia, tirando racha. Chegando lá, tivemos que salvar o sujeito não do acidente, mas da fúria dos alunos daquela Escola, que queriam linchar o coitado por danificar uma árvore ainda em crescimento. Cena de pastelão.

Mas o maior rachador era o Zé Pereira. Meio exagerado nos seus gostos veiculares, ele colocou tudo o que tinha direito em um belíssimo Ford Maverick GT 1979 prateado, o orgulho da turma. Seu nome era Marimbondo Prateado, e não temia nenhum outro carro, com exceção, È claro, de um outro Maverick mais simplório, mas que estava mais acostumado aos estimulantes ares de Interlagos. É que às quartas-feiras eu chegava mais tarde às aulas da tarde, para poder ir treinar no autódromo, e logicamente vinha rodando com meu Maverick de pista pela marginal diretamente para a Escola. Seu ronco forte já avisava que depois da aula tinha racha. Era tudo muito rápido: na avenida da raia a multidão ficava nas laterais até que os dois carros alinhavam. Uma baixada de braço do Kassab e lá iam os dois V-8, um lindo, outro barulhento. Apenas na reta, por uma curta distância, sem perigo. Depois direto para casa. Apenas no dia seguinte se comentava sobre a performance de cada um.

Bem, o que faz aqui um cara de smoking e pé engessado? Esse é o Zé Pereira, e seu pé quebrado tem muito a ver com os dois Mavericks. Depois que soube que eu havia retirado a direção hidráulica do meu carro, para que pudesse correr em Interlagos, ele quis comprar o equipamento para instalar no Marimbondo Prateado. O negócio estava quase feito, até que ele descobriu que eu venderia apenas o sistema hidráulico, e não a caixa de direção de relação curta. Mesmo insistindo muito, eu não poderia me desfazer da caixa curta, que sem o sistema hidráulico ficava perfeita para a pista. Para compensar, indiquei ao Zé um colega de pista que tinha o conjunto completo, também retirado de um Maverick transformado em carro de corrida. Agora sim, o Marimbondo Prateado estava completo. Até a semana antes de nossa formatura. Todos de smoking, posando para as fotos, e eis que aparece o Zé Pereira de pé engessado. A causa de seu infortúnio me deixou com a consciência pesada durante um bom tempo: a direção hidráulica que ele comprou de meu colega de Interlagos travou em alta velocidade, fazendo com que o Marimbondo Prateado acertasse em cheio uma árvore. Assim como o meu Maverick algumas semanas antes, era o fim do carro do Zé Pereira. E também de alguns ossos de seu pé esquerdo. Mas ele não perdeu a mania de exagero: com o fim dos Maverick havia dois anos, seu carro seguinte era um Diplomata 250 S, ainda mais equipado, e com turbo compressor. Detalhe: também prateado.

 

 

 

Publicado na Revista CARRO número 69, julho de 1999, página 66

 
 

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