Uma das melhores notícias do ano passado foi a implantação do novo Código de Trânsito. Primeiro mundo? Quase. Com as novas regras, o trânsito brasileiro poderia ser um dos melhores do mundo. Poderia, mas não é. Pelo menos enquanto aquele componente do automóvel que vira o volante e troca as marchas (é, você mesmo) não tiver a consciência de seu papel na sociedade.O que sobra em habilidade falta em respeito e disciplina. Mas a responsabilidade não é toda do motorista. Os governantes estão totalmente alheios a esse problema e tudo o que fazem nesse sentido é apenas para causar impacto. De que adianta ter um dos mais rígidos códigos de trânsito do mundo se as suas imposições não são fiscalizadas? E o pior: quando as coisas parecem estar tomando um rumo, como o recente fato se se estarem punindo os motoristas mais rebeldes com a cassação de sua carteira de habilitação, surgem idéias absurdas de aumento de 20 para 30 pontos o limite para se perder a carta. Isso só serve para desmoralizar o novo código, fazendo com que nunca mais alguém tenha estímulo para cupmprir as leis. E tem mais: fala-se em anistia para os enquadrados na cassação. Isso é a mesma coisa que perdoar condenados. As conseqüências dessas irresponsabilidades podem ser sentidas no próprio trânsito, que nunca esteve tão violento. E eu não quero dizer apenas a vilência dos acidentes, mas principalmente a violência que é cometida entre cidadãos, devido à falta de respeito. Quando se desrespeita uma lei de trânsito, a falta maior não é contra o código, mas sim contra o semelhante. Se uma placa de "pare" está em uma esquina, isso significa que o motorista deve parar mesmo, verificar se não vem nenhum carro na via preferencial e depois sair novamente. Mas quem é que pára por causa de uma placa dessas? E aquela placa triangular, apontada para baixo, que existe na entrada de todas as mini-rotatórias? Ela indica que quem já está na rotatória tem preferência de passagem. Mas ela é desprezada praticamente por todos, mesmo quando embaixo se lê "dê a preferência". Se um motorista resolver dirigir na cidade exercendo integralmente os seus direitos, certamente estará em maus lençóis. Ele arranjará desde um susto até um grave acidente. Quando não uma boa briga, já que quem desrespeita as normas de trânsito geralmente sabe o que está fazendo e não admite ser admoestado, paritndo para a briga se o agredido resolver reclamar. Os órgãos de trânsito são os principais culpados disso. Onde está o policial que deveria multar quem estaciona em local proibido, prejudicando o trânsito? E as padarias e outros estabelecimentos que se apropriam de área pública, pintando vagas "exclusivas" no passeio? E como ficam as regiões menos densas, onde uma placa de contra-mão não significa nada para um mau motorista? Porque é que se vêem tantas pessoas falando em seus telefones celulares enquanto dirigem? Com certeza tudo isso acontece porque todos sabem que o mau motorista ficará impune à maioria das atrocidades que vier a cometer no trânsito, simplesmente porque não existe fiscalização. E quando há, e se chega às últimas conseqüências legais, como cassar a carta do mau cidadão, interesses escusos propôem que o pouco que foi conquistado seja perdido. Infelizmante para a maioria, que são bons motoristas e bons cidadãos.

 

 

Publicado na Revista CARRO número 71, setembro de 1999, página 66

 
 

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